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quarta-feira, 6 de outubro de 2021

"Na bruma leve das paixões que vem de dentro..."

 Há um tempo nascia esse perfil, espaço criado para dar um destino ao que me transborda de  encontros entre psicanálise, arte, cultura, poesia, afetos... Eu queria um espaço que aproximasse tudo isso.


Alguns de vocês já captaram a referência. Me inspirei na música "Anunciação", uma das minhas preferidas de Alceu Valença. Tomei a liberdade de trazer o meu olhar, já atravessado pela psicanálise, para a leitura dessa obra que pra mim, fala de afetos, mas pode dizer também do inconsciente: como uma bruma nos impede  de acessar seus registros, em sua realidade nua e crua. Mas essa bruma  não é tão densa que possa impedir que algo escape de lá. Que algo nos salte aos olhos, com máscaras, disfarces atravessando cortinas de fumaça...

Algo que se olharmos bem, nos permite fazer nossas travessias...

"Na bruma leve das paixões que vem de dentro..." - inconsciente, morada de desejos. Desejos que nos movem, seja para buscá-los ou ainda para fazer com que nos escapem...
"... tu vens chegando pra brincar no meu quintal..." - ahh... o desejo, um travesso que tem algo do infantil e que brinca conosco!
 
E eu brinco: com a escrita e seus (des)enlaces,  tento transmitir algo da psicanálise, não tanto do que nela tem de técnico, mas daquilo que nela me afeta.

"Tu vens, tu vens... eu já escuto os teus sinais" - o desejo se anuncia entre brumas que o mantém envolto em mistério... no ato falho, no sonho, no sintoma, no chiste, na repetição, na poesia, na arte, no que pulsa nas veias e emerge à flor da pele...

Ao escrever esse texto, busquei o significado da palavra "bruma". Eis o que encontrei:
*nevoeiro;
* figurado - o que dificulta o entendimento claro de alguma coisa; o que é vago, não se compreende facilmente;
*obscuridade, mistério, incerteza.

O encontro com os sentidos dessa palavra reafirma a escolha deste nome. Com ele, traço uma borda possível em torno de algo que é constitutivo do sujeito: o desejo e suas contradições; o sujeito do inconsciente se apresenta envolto em mistério, e não é assim tão facilmente compreensível. Para desvelá-lo é preciso entrar num jogo de decifrar enigmas!

Leve Bruma... a poesia enlaça a arte, que flerta e faz amor com a psicanálise!



*Publicado no Instagram @levebruma.psicanalise em 20 de janeiro de 2021

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Leve Bruma

Por que Leve Bruma? 
Pouca gente sabe, mas eu escrevo. Escrevo muito. Seja por gosto ou por necessidade, escrevo. Escritas livres e despretensiosas fazem parte desse sujeito que aqui se apresenta. E não poupo palavras, não sou sucinta. Não sei sintetizar, porque sempre há algo que escapa, e tudo vira "textão"...
Há algum tempo eu queria um lugar para minhas "escrevescências", e desse desejo surge esse espaço: Leve Bruma, como um lugar de fala, e sobretudo de trocas. Espero compartilhar aqui um pouco de tantos universos que me atravessam enquanto sujeito, enquanto psicóloga, enquanto eterna estudiosa da subjetividade, das relações humanas, da cultura, da arte, da psicanálise...
Leve Bruma é a tentativa de realizar aproximações, de nomear algo que ainda não sei bem o que é. 
Eu queria um nome que fosse poético e que traduzisse se possível, ou remetesse a algo que diz do inconsciente... foi um processo longo, enquanto eu realizava essa busca, pois nenhum nome se aproximava o bastante ou soava com fluidez.
Surgiu então, na minha mente: "Leve Bruma", em uma clara referência à belíssima música Anunciação, de Alceu Valença, que bem no início diz: "na bruma leve das paixões que vem de dentro, tu vens chegando pra brincar no meu quintal..."
Essa música sempre me remetia a uma ideia de amor romântico, assim como muitas outras histórias, poemas, e criações que falam também de amor. Mas também como toda a arte, ouso dizer, está também aberta a interpretações. Assim a arte vive, se reinventa, se metamorfoseia e ecoa em cada um de nós.
A obra, na minha leitura, fala de afetos. Pode ser que fale também do inconsciente, afinal há uma bruma que nos impede de acessá-lo no que diz de sua realidade crua, mas essa bruma não é tão densa que possa impedir que algo escape e nos salte aos olhos, pelas máscaras que veste ao atravessar cortinas de fumaça: pelo equivoco, pelo sonho, pelo sintoma, pelo chiste, pelo ato falho, pelas repetições, pela poesia, pela arte...
"Na bruma leve das paixões que vem de dentro..." não seria o inconsciente morada de tantos desejos, que nos movem, mesmo quando não há clareza se os buscamos ou se agimos para que nos escapem? Esses desejos, que tem algo de infantil, que demandam quereres e brincam conosco. Mesmo que ocultos na bruma leve, estão presentes e nos constituem a todo momento, nos engatam ao outro e a nós mesmos em percursos únicos, em eternas buscas de sonhos, ideais e sabe-se lá mais o quê. 
Leve Bruma, licença poética para essa livre associação, para infinitas interpretações, para a escrita e para a leitura, para a escuta... 
Nem precisa de muita explicação... esse nome também diz da íntima relação da psicanálise com a arte; da psicanálise como arte da escuta, na qual a posição do analista enquanto espectador de um discurso, lança um olhar que se faz presente para transcender a experiência do protagonista em cena,  e este pode reinventar-se a partir do seu lugar de fala, ao ver-se refletido no olhar do analista.
Leve bruma, a poesia enlaça a psicanálise, que flerta e faz amor com a arte desde o seu advento...

Esse espaço não tem o intuito de ser demasiadamente técnico ou de carregar um rigor teórico a priori, mas de passear pela psicanálise e outros discursos, deslizando entre seus sentidos. Apontar suas aproximações, distâncias, (des)enlaces.
Eu, na posição-sujeito "psicóloga escrevedora", ou tão somente escrevedora, me permito aqui brincar com a escrita, me lançar em devaneios, compartilhar ideias, ensaios, e o que mais transbordar nestes (des)caminhos de escrevivências.

Que este seja um espaço de diálogo, de trocas, de circulação de afetos, e acima de tudo: de acolhimento!
Aqui não serão tolerados discursos de ódio. 

Seja bem-vinda/o, quem vier por bem!